
In a scrapyard, an alien with a bandaged left arm crafts a flower out of metal






Olho para a imensa branquidão do papel, como se estivesse a olhar para o meu cadáver. Os dois nada diriam em qualquer caso. Junto-me em coro banal, por cima da minha cabeça balão sem legendas. Devem ter pago cinquenta reis e uma de champagne português à minha musa, para ela e eles estarem a contar anedotas no bairro da má fama, onde nem entro como participante para escorregar em cascas de banana ou desenhar castiçais para alumiar entradas de gargalos naquela buceta de pandora.
Quando persiste esta substância de facto, me parece, ironicamente, nem se distinguir das ocasiões em que blasonado, julgo correrem doutro modo.
No resultado do silêncio, no cachucho da arte, o discurso ir-se-á cambiar por moedas polacas ou angolanas, evidentemente incorrectas e deslocadas neste âmbito ou mesmo nos lugares de origem como a tromba do elefante num casamento católico. O meu bloqueio criativo e as traições da musa, para lá do fim do mundo onde agora estou, para lá das folhas brancas, riscadas ou não, me fazem prosseguir além dum sétimo dia praticando a ontologia geral. Concluindo isto, devo agradecer então, e efusivamente, ao buraco onde repousam tantos cachorros sem ideías e onde se interessam em nós múltiplas coisas de imbecis. A mais honesta das definições sentimo-la por sob as horas em que as flores da poesia são comidas por borralhos, directamente do bacio. Que guardem a suposta arte, que guardem a musa, cheia de pichotadas no rosto, bem arredada das minhas considerações opacas e solitárias, já estou farto de lhe ver o traseiro a engarrafar a porta da saída.
“Ia uma criança a brincar com o seu pião no meio da chuva...”
Nesta justiça, os viventes lotaram com famílias de pormenores quezilentos e ranhosos, a sabedoria paternalista. O dia bonito para se assemelhar a tectos de capoeira, ficou ele mesmo a pintura de meninos de galinha e homicidas premeditados. Sustento da necessidade do engano num terreno que era sem definido ainda; aonde se despejaram noções ruças para fronteiras de propriedade, para linhas directoras, para enchimento de sofá. Conceitos de etceras apalaçados em rumbas de parlamento, os edifícios arruinados da fundação ao céu. E estradas que se entortaram por deméritos abstractos. Esta sucessão morfológica concedeu à humanidade o seu quintal para brincadeiras.
O mundo nunca se estendeu nesta suposta inocência, construída, em cartas da Maria. Ficou de costas viradas e segredos guardados na gaveta. Os seus desertos, traçados por velhos e velhas sem resposta, sulcados por pantufas gastas e cadeiras de rodas sem óleo. Portanto somos as criaturas imagens plácidas e neo-divinas da impostura ao exterior, servis aos propósitos inerentes ao género. Para esconder o inconveniente é necessário assegurar a produção em massa dos chamados sofismas, chocolates, espingardas; tapa-olhos do tamanho de Himalaias. Em tal auto-destruição divulgadas incontáveis fisionomias, incontáveis mercadores da mentira, conduzindo séquitos de vendados e tocadores de realejo e flauta.
O que aconteceu aí? Para onde foram os vestígios da harmonia verídica, as folhas de figueira que tapavam as vergonhas?
O pão não se produz. O leite é ordenhado da pipa onde maganos chucham como das tetas da mãe. Por trás da linguagem das convenções a rasura nem deitou a perder complexo e simples, que se afadigam, para observador, com trejeitos histriónicos de galos risonhos. Por aqui se engomam fundamentos e valores, com suas cristas ocas e suas penas, dividindo com poupas a Gália dos Césares.
Prevalece o atavismo do engano. Nos meios académicos sói dizer-se que a razão a tudo civiliza, conduzindo as multidões à realização do espírito. E esta mecânica de raciocínio, auto-imposta e auto-proclamada falseia o papel-moeda das naturezas, o canto dos astros. Impedindo-nos, no constante da morte, de encararmos frente a frente esse bico adunco que nos rasga rugas, e nos faz rapar frio. Na mais profunda ignorância limitamo-nos a chamar em berros o diabo que dança.
Deixámo-nos apenas a questão do onde e quando, que vai ser, para a ubiquidade, irrelevante. E leis que declarámos e impusemos para qualificar e regular medidas tão espúrias como o formato dum borralho enfiado num caixão ou o comprido de um pensamento. São categóricas, quase tanto como antepassados a coçarem a cabeça em cima duma nuvem.