Sábado, Outubro 31, 2009

O CAOS REINA


Sexta-feira, Outubro 30, 2009

O NADO MORTO




Silencioso,
Adornou numa caverna insuportavelmente bela e efémera, ainda perto de se considerar brincadeira de origem divina, nunca adivinhando lugar na tragédia como soprano sem língua. Entre o pó e as sombras, ainda sem ser abreviado num mundo inóspito ou atirado para uma caixa de sapatos. De certa forma, esta alegoria, onde começavam a ser os escravos os que se entregavam ao dia, foi encetada ao ranger da cama velha e da armação a bater na parede das divisões. Uma ocasião corriqueira de tão vulgar. Onde, no entanto, o inexistente plácido espiava as criaturas já feitas, desarrumadas, a praticarem a síntese paradoxal, esses que o irão conceber num luminoso pequeno espaço entre o nada e o estar criado, afirmação de múltiplos potenciais, contrariando cabelos brancos. Oh que momento inolvidável, onde se pudesse o fotografaria para pôr nas entradas das coisas, ou nas entrelinhas dos poemas. Enquanto durassem, e durariam , se reconstruiriam os desígnios em planícies de jaspe e jade, nunca conheceríamos derrota ou desespero de embrulhos caindo do ninho. E as baratas humanas, glosando Kafka, ficariam compreendidas pela família. Contudo, depois da epifania virá sempre a queda da inocência dos maus actores, a quem deram argumento copiado pelo canto do olho.

E uma coisa que pode ou não ter nada a ver com isto, um chulo exibindo anéis de ouro com as iniciais das suas mulheres e dos seus homens. Todo satisfeito.

SENTIDOS, DESABROCHAM NUM ESPASMO




Sentidos, ou enganados nessa coisa, à espera indefinidamente do autocarro, desabrocham num espamo patético. Risos tontos, definidores, quando acordam inconscientes e se cumprem, assaltando a madrepérola das cidades. Por entre os prédios ouvem crescer as impossiveis floras e faunas dos imaginários, as únicas que lhes dão a paz violenta da atenção e do dialógo monologado. Comungando de estatuto igual como produções de algum solipsismo efectuado por inteligência bizarra. Sempre assim se comportam, regrando isto já como a medida da compreensão e companhia deles e dos outros.

Terça-feira, Setembro 22, 2009

NOITE TODOS OS DIAS



Aqui se apresenta uma anotação, ou compêndio, como plano ou axioma, fundado a efectivações pela súmula dos existentes das suas razões de ser. E, a partir da observação interpretativa desses pássaros histéricos com normalidade postos num ônus extrovertido. Objectar-se-á que tudo o que aqui discorrer, pela estranheza da base de onde venham as funções humanas, só pode ser devaneio senão conjectura, ou heresia conforme a vulgaridade dos eus. Contudo, corresponderá ipsis verbis, menos como especulação e mais como evidência, à natureza fabulosa de borralhos não desenhados a papel ou transcritos na sua certeza.
A transposição destes axiomas para o papel dos Rossios é anterior a qualquer intenção, escrito sem ser em papéis, actualizado momento a momento como a mais honesta das apercepções auto-evidenciadas, pela prática constante dum centro ou do tal prosaico axioma. Encontramos coisas que nos recordam o trabalho feito por outros, mesmo nós o testemunho vivo e abrangente, e quando não haja ninguém para reparar nele, tão autêntico como este embrulho de texto corroborado neles.
O estilo errático subsume em si a mais divina das imprecações, que se justifica de modo próprio: é a exegese das criações ditas pela criatura individual, subjectiva q.b, objectiva no único curso que aos mortais compete ou se concede, a criatura que fala e o coxo que anda direito nas suas naturezas fidedignas.
O facto simples, de na sua essência ilegível, este texto se cumprir, deve servir justamente para relevar esse acto, que chega a ser, por via das suas propriedades intrínsecas, um manifesto e moi-mento da mais alta estirpe e categoria em que os intervenientes assinam por baixo (todos). Assim nos foi mandado por correio, para rua do nunca, o significativo citado de agora já não sabermos ou podermos explicar. O vagabundo sentado à porta do supermercado, e a musa, lá dentro, "a olhar para" enquanto as suas peças de fruta rebolavam caídas.
As distâncias palmilhadas de pés nus roussam o profundo conteúdo escondido destes caminhos, não tanto herméticos, mas resultados das sínteses das histórias ou tragédias praticadas activas ou potentes em cada um. Elas apresentam-nos o piano onde os seus dedos de pés tocam músicas horripilantes de povo e massa homogênea. Traduzidas à letra, destas interpretações a música dos espíritos endireita-se como piru ou desaba com violência base num cai-cai de classificações genéricas. Mais, atentando que o poder da legitimação é tão fidedigno aqui como em qualquer parlamento, voltam ao assunto original, com o qual tentam transmitir o anseio da apresentação, para quem ignorada, um não ao comprido e subjectiva-objectivada: um rótulo de preço e composição na ironia.
Por meio da algaraviada das vidas as singelas linhas, aqui, que ninguém lerá, virão emendando as constituições e os constituintes com o valor reflexivo e actuante duma constatação automática e passada a abrupto definidor ali e aqui ou lá. Longe da conjectura, os canhenhos sebentos e as faltas gramaticais serão caucionadas in loco pelos insuspeitos artistas da praça, da raça e do conteúdo.
O coro re-aprova, ignorante, em cada gesto seu estas palavras e o projectado deles, mostrando com troça os seus feitos, inconscientemente, ao Apolo derribado, passado a ferro e posto na prostituição em cidades marítimas. Considerem-se então estas singelas linhas que ninguém lerá como emendas à constituição feitas e aprovadas pela multidão invisível:
“Os porcos engasgam-se com as pérolas do discurso da superfície.”, se alguns (estoicamente) acastelam a forma sobre o íntimo, depressa verão essas pérolas de heresia chegando a mãos-cheias por entre, e por culpa de, coisas que se produzem neste fim do mundo em cinco minutos, como prova dos grandes e únicos sistemas.

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

OUTRO POEMA SOBRE LISBOA



Já não há roupa branca nas varandas; agora estendem, ou melhor penduram, corpos daqueles que sentem o coração contra as paredes

Vão ficar lá até serem roubados do estendal por engano, o joaquim queria o par de calças de ganga

Com o passar do tempo, macilentos e esquálidos, vão reforçando herméticos signos de escrita; Um Nerval, um demónio engravatado, um leproso de dez anos

Ao nivel das ruas a visão é dantesca, trambolhos gigantes e minusculos gastam a pedra granitica das esquinas

Os retratos da morte pregados nos postes dos cruzamentos e as asas dum pombo sujo a baralharem as cartas.

A NOITE DA TUMBA, DESTA SÓ LHE GUARDÁMOS O TITULO



Sombras na cabeça. A constatação sintética, ainda que parcamente consistente ou elucidativa de gestos de macaco a ribombar nas gaiolas. Curiosamente, pensando que enfim as ilusões esmorecem à nossa vontade, o antigo refrão socrático nos faz entender, que quanto mais se esfumam, essas ilusões, mais ganhamos o absoluto esdrúxulo no quanto perdemos de relativo objecto. Quando os artificios da razão se vão acumulando, conectamente, funcionalmente, burocratizando o espaço das sanfonas e dos apalpões, mais se põem a jeito do providencial pé quarenta que os esmague como migalhas de pão dadas a vermes de boca aberta. A virgindade das coisas, depois de desflorada pelos intelectos, sobe desavergonhadamente as escadas da pensão do espanhol, levando a bicharada pela mão, toupeiras de chapéu com pena, cadelas de saia cor-de-rosa, seres humanos envoltos em fumo. Supostamente irão cavaquear sobre altos assuntos, os mais relevantes, até ser madrugada nas mais altas esferas dos conselhos e das certezas.
Pois bem, passou do meiodia, e o espanhol, querendo arejar os quartos, lá bateu à porta. Abriu-lhe um galifão todo nu, branco como cal, já endereçado à posteriori para os infernos do pensamento conclusivo.

Quinta-feira, Setembro 10, 2009

circa 1985



Lá ia eu, uma criança que se assoava às mangas do pullover amarelo

Sem saber que “muitas coisas grandes havia sobre a terra”

Ia acompanhar a avô ao cemitério: o recomeço brusco das almas, a branquidão enegrecida da flauta de ossos – onde o coveiro bêbado soprava como uma puta

Ia visitar a minha mãe – a única santa, a que foi descalça para o inferno das biografias apagadas selvaticamente com aquelas borrachas vermelhas azuis

Nem me obrigava a ver o dia das pedras e dos mortos, para mim a coisa desconcertante era reparar nas flores, depositadas à anos, talvez na altura do adeus, que estavam secas e estaladiças como requiems da atenção de muita gente que prosseguiu a vida

Esqueceram-se daqueles restos emprateleirados ao monte, dispostos a três pancadas, por onde o peso dos corpos foi sendo amassado, e a pele, rasgada por corvos taralhocos, vestiu o fantasma de preto

“Quando eu era de criança
Ia de quando em vez
Visitar a minha mãe

Ia com minha avô
Que me obrigava a ver o dia
Das pedras e dos mortos

eu cismava sobre o peso
Das estrelas e do tempo
De encontro àquele deserto”

mãos lassas abundavam ao extenso do sítio, o coveiro dormia em cima dum caixão, com a braguilha aberta, estremecendo no seu sono, sabe-se lá com que terrores cósmicos

E o afago desinteressado da noute
Ainda orvalhando mármores, e os ciprestes curvados, sentenciando o que cá ficava com os monumentos do absurdo e o fim da inocência

desde então eu e os mortos encenamos os números, como sói a quem quiser o esclarecimento oblíquo

Quarta-feira, Setembro 02, 2009

o meu bloqueio

Olho para a imensa branquidão do papel, como se estivesse a olhar para o meu cadáver. Os dois nada diriam em qualquer caso. Junto-me em coro banal, por cima da minha cabeça balão sem legendas. Devem ter pago cinquenta reis e uma de champagne português à minha musa, para ela e eles estarem a contar anedotas no bairro da má fama, onde nem entro como participante para escorregar em cascas de banana ou desenhar castiçais para alumiar entradas de gargalos naquela buceta de pandora.

Quando persiste esta substância de facto, me parece, ironicamente, nem se distinguir das ocasiões em que blasonado, julgo correrem doutro modo.

No resultado do silêncio, no cachucho da arte, o discurso ir-se-á cambiar por moedas polacas ou angolanas, evidentemente incorrectas e deslocadas neste âmbito ou mesmo nos lugares de origem como a tromba do elefante num casamento católico. O meu bloqueio criativo e as traições da musa, para lá do fim do mundo onde agora estou, para lá das folhas brancas, riscadas ou não, me fazem prosseguir além dum sétimo dia praticando a ontologia geral. Concluindo isto, devo agradecer então, e efusivamente, ao buraco onde repousam tantos cachorros sem ideías e onde se interessam em nós múltiplas coisas de imbecis. A mais honesta das definições sentimo-la por sob as horas em que as flores da poesia são comidas por borralhos, directamente do bacio. Que guardem a suposta arte, que guardem a musa, cheia de pichotadas no rosto, bem arredada das minhas considerações opacas e solitárias, já estou farto de lhe ver o traseiro a engarrafar a porta da saída.

Domingo, Agosto 30, 2009


Na função da origem sempre os supostamente sólidos se edificaram. Desde que alguém se convenceu que fundamento rude (pois o são nas condições) iluminaria a noite escura do arabesco. Com efeito, houve termo genérico que primeiro devorou o plácido e desesperado amorfo, ainda sem leis, para posteriormente lhe encaracolar seus próprios celacantos. Não foi de agora que se estreou esta justiça de postiço. Enquanto a cobiça ou a sensação da segurança não se proclamasse em natureza de domínios ficar-se-ia encolhido com pesadelos cor de laranja. Foi num dia primeiro que se deu esta reflexão de necessidades:

“Ia uma criança a brincar com o seu pião no meio da chuva...”

Nesta justiça, os viventes lotaram com famílias de pormenores quezilentos e ranhosos, a sabedoria paternalista. O dia bonito para se assemelhar a tectos de capoeira, ficou ele mesmo a pintura de meninos de galinha e homicidas premeditados. Sustento da necessidade do engano num terreno que era sem definido ainda; aonde se despejaram noções ruças para fronteiras de propriedade, para linhas directoras, para enchimento de sofá. Conceitos de etceras apalaçados em rumbas de parlamento, os edifícios arruinados da fundação ao céu. E estradas que se entortaram por deméritos abstractos. Esta sucessão morfológica concedeu à humanidade o seu quintal para brincadeiras.

O mundo nunca se estendeu nesta suposta inocência, construída, em cartas da Maria. Ficou de costas viradas e segredos guardados na gaveta. Os seus desertos, traçados por velhos e velhas sem resposta, sulcados por pantufas gastas e cadeiras de rodas sem óleo. Portanto somos as criaturas imagens plácidas e neo-divinas da impostura ao exterior, servis aos propósitos inerentes ao género. Para esconder o inconveniente é necessário assegurar a produção em massa dos chamados sofismas, chocolates, espingardas; tapa-olhos do tamanho de Himalaias. Em tal auto-destruição divulgadas incontáveis fisionomias, incontáveis mercadores da mentira, conduzindo séquitos de vendados e tocadores de realejo e flauta.

O que aconteceu aí? Para onde foram os vestígios da harmonia verídica, as folhas de figueira que tapavam as vergonhas?

O pão não se produz. O leite é ordenhado da pipa onde maganos chucham como das tetas da mãe. Por trás da linguagem das convenções a rasura nem deitou a perder complexo e simples, que se afadigam, para observador, com trejeitos histriónicos de galos risonhos. Por aqui se engomam fundamentos e valores, com suas cristas ocas e suas penas, dividindo com poupas a Gália dos Césares.

Prevalece o atavismo do engano. Nos meios académicos sói dizer-se que a razão a tudo civiliza, conduzindo as multidões à realização do espírito. E esta mecânica de raciocínio, auto-imposta e auto-proclamada falseia o papel-moeda das naturezas, o canto dos astros. Impedindo-nos, no constante da morte, de encararmos frente a frente esse bico adunco que nos rasga rugas, e nos faz rapar frio. Na mais profunda ignorância limitamo-nos a chamar em berros o diabo que dança.

Deixámo-nos apenas a questão do onde e quando, que vai ser, para a ubiquidade, irrelevante. E leis que declarámos e impusemos para qualificar e regular medidas tão espúrias como o formato dum borralho enfiado num caixão ou o comprido de um pensamento. São categóricas, quase tanto como antepassados a coçarem a cabeça em cima duma nuvem.