
"Monstros não podem ser anunciados. Não podemos dizer: aqui estão os nossos monstros, sem imediatamente tornarmos os monstros em animais de estimação."
Derrida
Bocejar... divagar ociosamente, comer uma peça de fruta; repetir a si próprio: "isto não é comigo". Subterfúgio dos vulgares, garrafa de whiskey vazia. A monstruosidade das sensações relaciona-nos com o simultâneo interior, onde tudo é anunciado por carpideiras, tudo está anunciado e perpetuamente estimado. Entidade subversiva de puro estar aí. Basta ser linha, parcela de energia, pensamento em branco, flatulência. No mesmo gutural arrepanhar o pranto de filhinho perdido. Era fácil que sem menção não aparecessem os intrusos, fácil demais. Mas o mescal de beleza e raiva depena-nos como frangos esquálidos numa cozinha. Deixar de bocejar, largar, largar... o agora azedo num arreio ou cenho pálido, axioma da foice, só isso. Sem excesso de sentimentalismo para uma ou outra criatura. A luxúria assalta sem dó nem piedade os bolsos para onde banimos as debilidades. Este é o trono do acontecer, da ilusão decadente, bolsos voltados do avesso para fora; ao redor uivam as caveiras fartas de outono. A peça de fruta, “o que tens na mão” de cada coisa ou sei lá eu o quê, sumiu num gomo esdrúxulo; carta de amor desperdiçada no meio de cabelos ao vento.
Certamente o signo que se exercita é o discurso da incompreensão. Alvoroço árduo, pateadas bravas. Entre ambos os sexos, descascamos a intersecção disso. Didascália grega para a qual não há deixas excepto regalar-se numa resignação cómica, apalpar as mulheres, ser declarado morto, embrenhar-se em ruas incertas dando dinheiro por ninharia alguma. Obrigar Édipo a aplaudir com muitas palmas e vivas.
Para variar, este tumulto, este amor, é a parte integral de cada actor numa peça teatral. Parte que é todo. E contudo é engraçado desejarmos sempre a volta do crime e da facécia: somos enigmas por dentro de enigmas. Carne, carne, Afrodite a égua selvagem para domar; paralelo do desconhecido e do conhecido.
O que surpreende então? o facto de não estarmos habituados à falta do beijo e da caricia, de não termos muito mais medo desses quartos de pensão e desses lençóis em desalinho e o preço destas coisas. Coisas demonstrando a rapace alegria dos instantes de vão. Conhecer e desconhecer embrulham-se mutuamente na infância projectada do Eu do desejo, essa beleza engatada nos vultos amorosos, nas esquinas roçadas, nas pernas, nos braços, nos troncos. Nas paredes e nos dorsos das baratas, nas boças dos corcundas e nos sorrisos amarelos dos anões: a noiva não está envergonhada. A sua fusão monstruosa é fatal e chamativa como sábado suado à noite. Muitos palavrões no coito.
Mais vale estimar tal desgraça, cálida esperança do pre-nunciado e do anúncio. Incompreendendo por necessidade, talvez, que aquilo que nos move é algo inolvidável. Constitutivo.Voltando a asneirar inocentemente e sem choros desmedidos ou generalizações de “todas serem putas e todos serem chulos”. Assim é, muitas viúvas, muitos viúvos; ajudando na faina deste vinho amargo e doce. Os seus casacos e vestidos ensopados numa embriaguez que se renovará no sempre amanhã: nada temam, nascem muitos trabalhadores para esta faina. Já estão a preparar a mala desde a primária.
Vamos, vamos a exclamar futilidade daquele dia, esperando os minutos da próxima vez. Estimação por harpias e hienas. Cartas de amor escritas em cima do joelho. Olhando o relógio, olhando o relógio. Tomara que nos intervalos solitários não nos faça demasiada falta o rasgão sanguíneo e a dor de tais momentos.

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