Algures existe uma cabeça cheia de pensamentos, cântaro cheio de cantigas e de saudades. Albas vagas salgando-se nos estilhaços de telefones que não tocam e de mãos que se esfregam de frio. Frio animal nas fronteiras do sangue e das pétalas de sonho e farpas. Brilha com angústia a vontade de lábios mordidos na sombra porque daquela vez eram risos numa tarde de verão. Cantigas e saudades da tarde de verão. Pudera, foi aí, foi aí que se deu o milagre. Esse onde os serafins devoravam com lentos passos as cinzas do alto. Respirações resplandecendo com puras marés de entendimento.Agora a cabeça pende para a mesa pontuada por objectos avulsos. Livros, folhas, copos sujos com porcarias enfiadas dentro. Cotovelos fincados na planície austera. Mãos segurando a cabeça. Insultado pela ausência e pela presença o outrora alvo de milagres. Axioma esfolado, proibido de mostrar fraqueza ou choro ou uivo. Pelo menos exteriormente sem a impressão de que o que queríamos nos magoara. Era o mesmo de agradecermos a sepultura com vénia ou balido. Seria uma beleza imperdoável para qualquer um, de imediato afastados do mundo dos vivos. Luminosa Filigrana, pétalas de sonho, nós desfeitos. Se realmente houvesse a expressão das fontes do sentido; das horas percorridas sem dar por isso.
Trouxeram a conta por fim, as tardes aniquiladas no esplendor. Eram trocos e notas que a alma não poupara. Algo apartado quotidianamente entre vislumbre extemporâneo, como que de uma cona angelical se tratasse.
Ao meio a danação, a mesa desarrumada. Os motivos alacres dos defuntos que passavam nas tardes roídas por ratazanas. A peste, a peste. Partir ou ficar? No entretanto imutável duram os cotovelos apoiados no tampo.

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