
a cama desarrumada considera-se como o exemplo da preguiça, os lençoís desbaratados são as asas do seu coro pecaminoso. quase sempre no reino de Morfeu, quase sempre na fantasia luminosa. a enxerga demolida é o espaço sagrado das comunhões mais perenes. o campo dos sonhos, clarividente; a comicidade duns testiculos a baterem num pito, divina união. até os pesadelos se fulgem da cinza da fênix, e a fisionomia estrepitosa vem de laurear entre céu e inferno. a cama não está feita? é o reflexo da vida, é um totem entre a vigília e o sono casando as partes desavindas.
Jesus tinha a cama desarrumada ou dormia em cima da palha do estábulo, o que em termos leigos significa seu travesseiro de bosta de vaca e seus sonhos de fogo e metal. cacareja agora enrolado na serapilheira do sudário, o leito dos sentidos, e suas asas de albatroz desleixam desígnios dos arrumadores. pateada de absoluto, sangue na parede. se, para efeitos de exemplo, tivessemos de representar esta rábula seria com criança e velho, que, por ocasião de um quê de metafisico se proporcionassem de seguinte modo: a criança, de modo irreflectido, levantar-se-ia de pulo, interrompendo a brincadeira de soldadinhos, e chegando ao pé do velho mijado lhe cuspiria na cara. isto equivale ao antagonismo entre forma e contéudo num seu gesto deseducado vindo de pompa publicando litania.
o que tem isto com camas desarrumadas, o que tem com a inaptidão de entalar lençoís? ora, é sabido que mesmo em pé nos estamos deitando na planicie das figuras, na açorda das más conexões. entre pessoa que dorme e pessoa que acorda o consolo da correcção bandeira. toureio de capa espada. a ordem, evidentemente, nada serviria para qualificar tal maravilhoso mundo de sonâmbulos.

1 comentários:
a última frase é de uma crueza quase sagrada...
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