Terça-feira, Junho 27, 2006

A RUÍNA DA PSICOLOGIA NO FACTOR AMOROSO



"Monstros não podem ser anunciados. Não podemos dizer: aqui estão os nossos monstros, sem imediatamente tornarmos os monstros em animais de estimação."


Derrida

Bocejar... divagar ociosamente, comer uma peça de fruta; repetir a si próprio: "isto não é comigo". Subterfúgio dos vulgares, garrafa de whiskey vazia. A monstruosidade das sensações relaciona-nos com o simultâneo interior, onde tudo é anunciado por carpideiras, tudo está anunciado e perpetuamente estimado. Entidade subversiva de puro estar aí. Basta ser linha, parcela de energia, pensamento em branco, flatulência. No mesmo gutural arrepanhar o pranto de filhinho perdido. Era fácil que sem menção não aparecessem os intrusos, fácil demais. Mas o mescal de beleza e raiva depena-nos como frangos esquálidos numa cozinha. Deixar de bocejar, largar, largar... o agora azedo num arreio ou cenho pálido, axioma da foice, só isso. Sem excesso de sentimentalismo para uma ou outra criatura. A luxúria assalta sem dó nem piedade os bolsos para onde banimos as debilidades. Este é o trono do acontecer, da ilusão decadente, bolsos voltados do avesso para fora; ao redor uivam as caveiras fartas de outono. A peça de fruta, “o que tens na mão” de cada coisa ou sei lá eu o quê, sumiu num gomo esdrúxulo; carta de amor desperdiçada no meio de cabelos ao vento.
Certamente o signo que se exercita é o discurso da incompreensão. Alvoroço árduo, pateadas bravas. Entre ambos os sexos, descascamos a intersecção disso. Didascália grega para a qual não há deixas excepto regalar-se numa resignação cómica, apalpar as mulheres, ser declarado morto, embrenhar-se em ruas incertas dando dinheiro por ninharia alguma. Obrigar Édipo a aplaudir com muitas palmas e vivas.
Para variar, este tumulto, este amor, é a parte integral de cada actor numa peça teatral. Parte que é todo. E contudo é engraçado desejarmos sempre a volta do crime e da facécia: somos enigmas por dentro de enigmas. Carne, carne, Afrodite a égua selvagem para domar; paralelo do desconhecido e do conhecido.
O que surpreende então? o facto de não estarmos habituados à falta do beijo e da caricia, de não termos muito mais medo desses quartos de pensão e desses lençóis em desalinho e o preço destas coisas. Coisas demonstrando a rapace alegria dos instantes de vão. Conhecer e desconhecer embrulham-se mutuamente na infância projectada do Eu do desejo, essa beleza engatada nos vultos amorosos, nas esquinas roçadas, nas pernas, nos braços, nos troncos. Nas paredes e nos dorsos das baratas, nas boças dos corcundas e nos sorrisos amarelos dos anões: a noiva não está envergonhada. A sua fusão monstruosa é fatal e chamativa como sábado suado à noite. Muitos palavrões no coito.
Mais vale estimar tal desgraça, cálida esperança do pre-nunciado e do anúncio. Incompreendendo por necessidade, talvez, que aquilo que nos move é algo inolvidável. Constitutivo.Voltando a asneirar inocentemente e sem choros desmedidos ou generalizações de “todas serem putas e todos serem chulos”. Assim é, muitas viúvas, muitos viúvos; ajudando na faina deste vinho amargo e doce. Os seus casacos e vestidos ensopados numa embriaguez que se renovará no sempre amanhã: nada temam, nascem muitos trabalhadores para esta faina. Já estão a preparar a mala desde a primária.
Vamos, vamos a exclamar futilidade daquele dia, esperando os minutos da próxima vez. Estimação por harpias e hienas. Cartas de amor escritas em cima do joelho. Olhando o relógio, olhando o relógio. Tomara que nos intervalos solitários não nos faça demasiada falta o rasgão sanguíneo e a dor de tais momentos.

Sexta-feira, Junho 23, 2006

Vários moldes de um cão de pompeia


Jesus e Pã

ITINERÁRIOS DA CONDIÇÃO

Atrevo-me a designar o faustoso porte, teoria de Ser e pessoa, prosopopeia contingente. O que busco tão ansioso? o que busco nos meus minutos?
Já ninguém se importa com o dia em que nos abandonaram no mundo, cachorros indesejados. Então inclino-me para que fique tapado num campo de pura exibição, clareza patente. E a luz dos contornos ofusca-me, e eu desconfiando pouco da raça do problema. Tudo ruge: miséria e amor. Mesmo a boa gente que costuma ir à missa. Ser e pessoa são moldados pelo artesão rude das respostas que nunca tenho. A teoria entala imagens pornográficas entre as folhas do livro sagrado. Que matéria é esta? que espirito ou forclusão?
Reparo num louco a subir um banco e sei bem que ele não tem dúvidas, a vida é a prosopopeia, a própria prosopopeia. Puxar o cobertor para tapar o medo.

Segunda-feira, Junho 19, 2006

PORTUGAL - REFLEXÃO CRÍTICA (IV)

Através da sublimação dos relativos, o descentramento do lugar. O penteado barroco na cabeça da onda. A experiência mundana e intelectual definem dois ângulos unindo-se no vértice aniquilador. Triângulo onde o fim das ilusões implicam o fim do triângulo, onde as incisões cripticas arrasam a cripta. O quase-morto, o saltimbanco da ilusão, deve mostar assentimento perante uma borracha de apagar gigantesca. Estados e condições subjectivas do sangue, tempo-espaço ficam como o maço de tabaco usado; diluindo-se numa polissemia de positivo e negativo: positivo na medida em que tivemos de pensar a caracteristica até ao limite do exacto apolineo; negativo na medida em que tivemos de assassinar e destruir a metáfora da fronteira, fronteira de sujeito e fronteira de país.
Fez-se desabrochar, enfim, o "estar-aí", eterno pai de migalhas, total de tudo. Se um lance de dados fixou o infinito (Mallarmé), urge, no fixo da circunstância, demonstrar a exegése que a saudade lembra, projecta e volta; explicado no encontro ontológico de querer certos não-sei-quês. Simultaneidade do apriori e do aposteriori na língua intuitiva e metafisica de pessoas embriagadas a desafinarem fados e a rir chorando - mescla de nomes e coisas - o pleonasmo do todo nunca cansará. Em Portugal teremos a porta privilegiada para a sua maior afirmação e negação, a saudade como seu oximoro.
Com efeito, é do espaço e do tempo sublimados que podemos mentir tão pouco como os Deuses mentem, chegando a deslindar o supremo do qual os predicados são ilusões de facto. Não cabe ao pensamento concluír a viagem, é ao sentimento e à intuição que o cosmos oferece as melhores bagas. Porque é preciso fazer o acto do oximoro, desde que seja sempre a rábula de aparência ébria à perspectiva de um "quê" anulador.
Estamos com os saudosos, os verdadeiros pensadores de Portugal até ao absurdo de desaparecer no saco infindo. Irracionalidade, na conclusão, o trabalho demencial do vácuo a rebentar costuras. Arabesco simplificando num abraço antigo com futuro, até nos espancar - nós, simples bonecos de pano - para o derrube da fronteira física até outra de mesmo agora, paraíso parvo. Contudo nos limitemos a ser animais num palco, fuçamos numa rotunda luminosidade de soma de perspectivas, o Nada. As coisas tidas e as desejadas canibalizam-se umas às outras, e entramos sem cerimónias na única certeza: gritar por socorro é contra-producente ou irrelevante.

PORTUGAL - REFLEXÃO CRÍTICA (III)

A verdade é que o ritmo é ambivalente entre espaço e espírito, suportado pelo axioma do discurso em aberto. O telos deve ser admitido para uma trans-posição da forma abstracta para o contéudo comum aos noemas do fenómeno holístico. Largando a pose, chegando à hipotipose; significação verdadeira dos fundos intencionais da saudade - mostração pura - sem passaporte ou bilhete de identidade. Dentro permanece a tradição e o ante-passado num encadeamento transcendental de velhinhas de negro, marinheiros barbudos e capitães de abril. O fluir do tempo suplanta a partição pensada, através do sentido nacional, e o uno temporal suplanta o conceito do relativo. A reflexão, empurrada até às cinzas, para nova maiêutica; a saudade empurrada para lá das fronteiras, dissolução catabática no húmus do caos ordenado. Eterno retorno a um lugar, que, problematizado para lá dos conceitos e das fatias assume a natureza cósmica de um pensamento louco sem ser louco, só não-determinista. Porque o lugar, todavia, é toda a parte: noite em Austrália e pequeno-almoço de bolos de arroz na China, e nós somos um pastor africano a tomar conta de cabras.

PORTUGAL - REFLEXÃO CRÍTICA (II)

O crime reiterado, sacra ferramenta que se ajusta como trela aos pescoços de cada um. País, pátria, abismo; clareira do Ser mínimo e empírico, não o sujeito da unidade mas predicado de proposições - interno e amorfo - a fenomenologia do universo é varrida para a expressão colectiva e mítica que se apresenta como o porteiro inflexivel, impondo critérios de impossibilidade. Tanto em termos teóricos como práticos, o peso do pensamento e do centro (geminação), caricaturam o lugar do apare-Ser e vociferam num registo apofântico de palas de cavalo. Quem diz Portugal, diz o ente.
O que nos pôe numa superfície ôntica, o que conduz o "sem-fundo, sem-forma" ao abuso apolíneo de planície recortada ou deserto minimal (no mau sentido). A nacionalidade é uma inscrição no real, e mesmo que isto seja tão inútil como bajular o que nos separa da igualdade eterna e cheia de oceano, o complexo de cada cultura dissimula, contudo, a presença dos dois arquétipos. No caso português é evidente, é como a criança a constatar o facto, depois disto existe tudo e o desejo, e antes disto estivemos nus na mesma coisa. Fluxo heraclitiano nas letras do fadista com o cigarro e a bóina. Porém falta despoletar a imanência, descartar a decadência dos próprios simbolos: "temos pátria, conceito, identidade, o que quer que seja, mas o cão e o gato vadios são livres e unos". No fundo, a solução deste problema é contingente mas necessária, paradoxal; uns podem viver como escravos, mas o que neles está implicito é uma força mais extemporânea do que os tiranos podem crer.

PORTUGAL - REFLEXÃO CRÍTICA (I)


Isto é para encher algum espaço a mais, é o puro exercício de falta de humildade. Enquanto descanso (pura ilusão) dos frisos quotidianos engendro este interlúdio. E aqui acaba a menção à pessoa que fui ou que sou. Urge apontar agora para esse sentido inominável (o qual algo nunca saciará), essa metáfora de mundo, subjectivação de sinal maior em que todos somos pedintes de coisas - Portugal - em lado e em parte. Em oito estrondosas letras de lugar também está complicado o universal. Bem soletradas como a dádiva - suma riqueza - do talhe psico-dramático dos índigenas. Saudade, saudade , saudade.
Para contrariar a dispersão dos momentos repetimos o gerúndio tragi-cómico. Onde escorregam as reflexões na maré do atlântico e nas espumas. Queremos o que já foi no que há-de vir, e a clareira ontológica, tensionada, funde o tempo num fluxo de infinito Devir em Porvir. Boca da unidade ensarilhada só numa ideia que a faz depender do relativo espaço. E essa ideia nega o absoluto com a idiotia da realidade, e banaliza a tensão transcendental da alma portuguesa. A ideia de pátria resigna a condição vazia-positiva a um cheio-bruto de erros, mero pormenor da facticidade. É necessário implodir e explodir o tema com a intuição cósmica: "Nunca posso estar tão perdido como no próprio lugar que me viu nascer". A sentença dada a todos os corpos tem que ultrapassar a reiteração da identidade falsa.

"Em termos comparativos a loucura é infinitamente mais honesta que todos os livros de lógica."

Quinta-feira, Junho 15, 2006

SAUDAÇÕES AO MOMENTO

Saudações a quem cabeceia na gare dos suspiros que fumegam rumo às terras da história. O que respira é geralmente o animal das nostalgias, agarrando fotos amareladas num sótão, bebedor de segredos, masturbador de momentos. Suspeitando porém, que a esperança não acaba nas pegadas que soaram a dado ramal do percurso. Como o mundo não se refaz na porta que bateu no amor que desurdiu. Mas enganam os acentos deixados em prata nos olhos que foram e serão de aspas. Tendo neles a alegria do encontro da saudade sido por entre as espaldas da maré, da problematização da lembrança. Assim parece. Mais problemas, mais pulgas.
Se um Ser brilhasse, meneio da fuga do mistério, empunhando os ases certos, lembrar-se-ia? Distinguir-se-ia da prostituta que defende a virgindade ou o louco que diz olá dentro de si?
Ainda no meio das folhas rasgadas cinde o desejo de não ouvir e não ver o que se esconde na paciência farta. O que é o passado, o presente e o futuro, senão algo que mete no ar as fracas deduções?
Somente isto, ruído da cocaína, ruído do acto falho da memória; como o morcego a procurar insectos sem ser o mero exemplo da morte ali. Sem ser a carne desaparecendo por cortinas acolá. Tudo é fruto da contínuidade selvagem e do infinito, racionalizar o momento é a santidade e o nojo que incógnitas nos ofereceram para opinar.

Intervalo para poesia reles


que o meu crâneo seja menos polido

que as imagens de pedra

talvez uma borboleta

lá descanse

(se desejar a outra face da lua)

TROVOADAS

A luz, alugando quartos de pensamento. Esfrangalhando os telhados fisicos das barracas com arquitecturas de energia. Aqui Deus prova o seu tremendo sentido de humor. Violento, um violento sublime como rolos de massa passando por focinhos. As nuvens resolvem as antinomias, carregadas de electricidade riem-se sozinhas, planos de matéria espiritual.
Entretanto, a alma é ensanduichada entre fatias de puro aniquilamento, as palavras de bêbado somem para dentro dos pólos de ciência última; contando a morte dos factos da carne. Isso é a tal coisa que não se encontra nas escolas por mais que se faça franzir a testa.

Terça-feira, Junho 13, 2006

Pátria ditosa!

Portugal para onde vais?
Porque insistes em esquecer o oceano onde os afogados se fartam de água?
Nos olhos irados de ti se adivinha a ternura contudo. Mas as chusmas de lacaios só percebem os monumentos de nádegas, as objectivações de pêlos púbicos. Os cabarés imperfeitos da natureza e da essência, os bacanais onde os sexos se contorcem. Para ensaboar as orelhas da consciência acorrem reticências pornográficas, palavrões que se marcam; uivos onde se equilibram as vitalidades da Pátria dodecafónica.
Enquanto faltam harmonias (dignidades!) pululam produções de cascas de batata e respostas a Polifemo. Alguns, enquanto descansam, insultam os inválidos e troçam das grávidas, se pudessem destruiam uma cadeira de rodas a pontapé e queimavam o berço. O conceito de Pátria regozija nestas atenções.
A criação contínua de sentidos é o que vale, e o abono das más traduções inspira muitas originalidades. Porventura a determinação rigorosa das Europas do norte envergonha-se (quase certo) ao pé do grandioso sistema de tolices criativas e narizes ranhosos. E para tal somos imensos, como a probabilidade de senhores de gravata engraxarem sapatos de chulo.

Segunda-feira, Junho 12, 2006

UM SONHO FACCIOSO

Não tenho realidade apenas sonho. Logo também posso ser o sonho d´outrém, de uma alimária, de um insecto. Nada põe isso em causa, como nada põe em causa o facto do nada. Até o murro na parede, doendo, pode burlar o entendimento; parte sebenta de elaboradas maquinações. Mesmo que haja dúvida, esclarecer é impossivel. No meio de fluxos e de sedas, no auge de comícios etéreos, manobrar o ar rarefeito num espelho de alma e de corpo pode parecer o dejá-vu de fantasias de papel. A realidade é negativa como o barulho de alguém que toma banho e afirma que está limpo.
Saí à rua, talvez dentro da cabeça da cabeça; é igual se te beliscares. Sem convencerem muito todos esses movimentos de multidão batendo pés: as pernas estão andando para nenhum lugar.

Quinta-feira, Junho 08, 2006

AO CALÃO

No galinheiro, saber dar à pazada é uma virtude. Decifrar os códigos dos fenómenos implica esse bom dominio da linguagem. Um calão engenhoso como a genuína relação entre a matéria abjecta e o espírito escroque. É o orgão sensível do povo, e, com efeito, declara ostensivamente a presença do mim e do tu. Nada mais evidente como a vulgar e debochada interjeição; simplificar é a palavra de ordem. No mercado municipal, os discursos mais poéticos vêm com a terra das batatas e o sal da terra. Filosofemas espumando livremente como a raiva a um silêncio.
Sejam aqui as relações interpessoais ou coisa parecida, estranhas sinceridades no facto de um prosaico "não tenho papas na língua", ou no mais recorrente "mais vale foder os outros antes que nos fodam a nós".
Transmitem-se imagens fidedignas, francas, contéudos mostrados num paradigma de seco assentimento. A linguagem feérica dos carroceiros e das peixeiras é colorida como a fronha da humanidade, constatando a citação pessoana: "a alma humana é porca como um ânus". E em termos ontológicos, à falta de melhores palavras, é neste bom português que nos entenderemos.

Quarta-feira, Junho 07, 2006

DISSOLUÇÃO

Chega de presunções, chega de superioridade. Depois de tudo dito e feito, conclui-se que o árduo trabalho empalideceu perante a doce tristeza. Reminiscência da sempiterna unidade, a que apaga as coisas como riscos na ardósia. Choramos como criança e velho juntos, cantando ao mesmo tempo. A razão soberba implicou no momento da síntese, a aniquilação; o lenço abanado e fútil para quem partiu para as américas e não voltou, nem mandou carta. Sói concordar que isto é como os caminhos de cabra - tortuosos e dispostos para se partir a perna - quiçá a única salvação, calma, silêncio de grito ou esmola, venha sob a estética do crepúsculo das razões, outra forma de as nomear como bagatelas anotadas no rodapé.

Sexta-feira, Junho 02, 2006

FLORESTA MUDA


O que está aqui?

Não sei. pedaços da mesma leva da floresta dos sentidos que se afadiga brutalmente. Na sombra dessas árvores dancei entre cadáveres do antes e do depois; o tempo cristalizado exagerava-se em surdina como produto imutável, ficando sempre igual e sozinho no meio dessa floresta. Urros fazem estremecer as folhas, e nas próximas clareiras, escondidas do olhar, os animais despistam o desejo de trocar a solidão pela companhia. Nisso somos uma irmandade, talvez, imagens de luz consumida em pratos pobres. Suando medo, alguns repararão na absoluta e canibalesca canção que nos rodeia. Serão sumariamente esquecidos dentro da própria cabeça.

Dei volta à minh´alma e descobri a complacência irrompendo das marés. O urro era quase igual ao meu, e a humanidade enrodilhada nos mesmos trapos. Quiçá a vazão que nos despertava era uma contenda de saudades, o tempo de cristal, anotando-nos sem virgulas. Imutável incenso de lírios devorado por touros ensanguentados. Contornos ebúrneos gastos pela voragem de contornos que não admitem mudança. Temos para nos consolar apenas o vazio dos momentos eternos que não pedem desculpa. A floresta, atafulhada de lírios dos que se põem para enfeitar os caixões, parece tão mal amanhada como a gentileza dos coveiros. Simultaneamente e de modo incontornável encostamo-nos às sintaxes impiedosas, este é o tempo das canções sem tempo e a estirpe das flores é só uma. À medida que os urros se vão depenando nesta cascata, esqueço-me. Esqueço na sombra o espirito e o corpo, esqueço-me de que gritei. Rege-nos uma lei mais humana que o medo, que nas clareiras das florestas dos sentidos nos faz degustar os dias e as noites. O muito que perdemos a nós devemos e nem isso iremos cobrar.

Quinta-feira, Junho 01, 2006

ALTAS HORAS DA MADRUGADA


Aquilo que mais assombra é sem dúvida a soma pessoal. Onde as mãos, meros apêndices, manobram a tensão de espaços. O espaço para lá da janela e os pássaros executando rábulas livres; o espaço interior onde pessoas presas esperam em vão por visitas de cortesia. O pêndulo inexorável acerta o passo na solidão respirada e nos olhos rolando para cima, intersecção de opostos.

Estas duas entradas sagradas e belas, estes espaços que chocam dentro da carne sem muitas palavras. Nos caixotes de lixo rebuscam-se por outras coisas, e as pessoas mais presas, muito mais presas; e uma grandeza insuspeitada no fim das distinções a pedir que acabem com o dentro e o fora. Mas no amor a redenção foi aferida ao impossível como o par de cuecas esquecidas ao tom da vergonha.

Existe um terrível som para a dita filosofia decorar, o som das migalhas que atiramos aos passarocos que almejaríamos ser. Quanto a mim, mais do que uma vez invejei um raquítico de penas.