Sexta-feira, Outubro 27, 2006


O impropério da corte vem de melhores conselhos, sendo que em alguns dias da semana ousa tactear a coxa de mais ou menos alguns etéreos. Alguns anjos trazem o escárnio das lágrimas e do riso embrulhando em papel rude de mercearia, conselhos positivos. os conselhos são anjos mudos e as razões são, por ordem de um rei ausente, postas no estendal a secar ao pé de roupas de baixo. em problemas ilógicos de consequência apocaliptica a salvação está ao pé das meias com o calcanhar todo fodido:
quem separa o visivel do invisivel?
que mistura é esta que compromete o sagrado com os ditames do mundano, que mete na tromba dum padre o esgar dum proxeneta?

Dito isto foi para a esquina, o inquiridor, porque convêm insistir o menos possivel nestes assuntos. e uma esquina, ao contrário da intuição popular é algo desdobrado do neutro. E ele, confundido com quem traça a perna, o anjo mudo, fica dos que estiveram em Hiroshima ou na Etiópia, os que conseguem engraçar com o trejeito de piada fácil, o substituto amado do raciocinio. e sua é a ironia dos conselhos num deserto, os ecos num manicómio. Como se fosse trovador espera o canto do suicidário rouxinol. fingindo em cima de quem nas opções, nas metafisicas; sendo que muita gente prefere o comicio dos parlamentos, a res publica convicta de casamentos em igrejas sumptuosas. Não podem olhar para o fundo das covas ou para os magotes de vermes que já estão à coca sem serem embonecados de noivas e noivos para o eventual dislate da resignação.
Nada disto importa, Fernando também pessoa prostituia-se nos escritórios. O tempo tenebroso, e os anjos foram fodidos por vinte num vão de escada. E nós temos o condão de considerar uma ou outra coisa essencial como nos aprouver, ou a barbárie das certezas ou o tédio dos conselhos mercuriais ... por conseguinte gosto daquela miúda que passou, pois não me faz palavrear nestas coisas. assim. que reservem as esquinas de qualidade para os filósofos masoquistas.

Sábado, Outubro 14, 2006

PIU_PIU

“morto por formigas com golpes de machado, enquanto o resto escarnecia com aplausos e regabofe. Nem um cachorro sarnento acompanharia o funeral hipotético”

se alguma vez reparares nas minudências que te hão de arrumar, vai aparecer este retrato absurdo. um formigueiro inteiro e a essencial presença do coxo assassino. a lucidez do teu lado entrando em dueto com estas imagens. a vaga esboroada dum Spinoza vindo analfabeto em catedrais perdidas au arquétipo. a verdade dos pesadelos atrapalha bons samaritanos em corredores brancos do Júlio de Matos. Nem delirio nem patologia, uns panos agitam-se, umas pessoas caem de redondo no chão, uns lábios sopram numa harmónica. nos cantos da ala hexaédrica e panóptica resmungam-se os ditames acabados inflexiveis da forma e do contéudo. se ainda ontem meteste os sapatos na rua é altamente provável que a tua morte, natural, apenas constate que os vermes procuram os vivos e não os mortos.

o que podes fazer pequeno pássaro? as tuas asas foram atadas por um cordel antes de nasceres. e a tua filosofia foi passada a sujo num caderno vermelho com inscrições obscenas.

Sábado, Outubro 07, 2006

AlGUÈM CHORA

Alguém chora tapando a cabeça com os braços, articulando magia, coisa que vai falar com o mundo; caracteres se desenham com fôlegos mandarins vulgares. que provaram sobejamente a parcimónia, não duvidam, um rosto banhado de ranho e lágrimas de olhos de porco. Mas a liberdade amarga ou pura, vai para esse diálogo procurando comida, esse fantoche chorão podia estar rindo sem razão. O facto da liberdade contrariar o ensejo para aparecer num salão de visitas com a mesma tromba que eles, os sorrisos do inane e forçado.
Numa época onde a vagina do finito se escancara para a facilidade de passaralhos ejaculadores, as prosopopeias do género personificam-se mais na dificuldade. uma dificuldade de enfim lançar os braços ao ar ou de se encolher atemorizado numa assumpção ontológica. eis a posição fetal, a liberdade do aniquilamento e da vida pura.
Posto que a muitos tal faz espécie, quando passarmos por o vagabundo chorão ou o fantoche do arrependimento, podemos disfarçar. e, como nem somos fieis à própria natureza, nem sei se algum lhe mandará moedas pretas para o chão. a maior parte de nós será de engalanar num poleiro para aves de criação amaldiçoando os livres sem vergonha do ridiculo da luz.

Quinta-feira, Outubro 05, 2006

Scathos

Podemos argumentar que todas as pessoas no mundo inteiro têm razão de sobra. Razão de côdeas, restos, assobios de putas. Não se distingue nenhuma filosofia viável, a não ser queimar as roupas e os utensilios num pira funerária, até irreconheciveis. e dessa amálgama, livre do tabu, viesse o rosto nefando do espelho.
agora escolheriamos o ente perfeito: que resgata de figuras e pensamentos, a probabilidade de sem sentido.o merdoso Seria o que mais sujo estivesse, chamar-lhe-iamos Ele, o que viveu destinos. o messias da certeza prática. à falta de outro nas barbas da eternidade, era Ele e por ser precisamente feito à nossa imagem, o irrefutável, proposição certa. o merdoso bate com colheres nos tachos e masturba-se em público. Ele diria eu tenho o teu nome. o merdoso tem por única propriedade um muro algures nas cidades do crime e um confessionário de padre louco. e ele rasteja da multiplicidade das linhas e dos ruídos com a singular natureza das coisas e com desejos destrutivos. desforrando-se da multidão-ele-próprio num auto de fé, suicida homicida. Nome que gentios e sábios de todas as religiões substantivam aos destinos, ao que eles pactuam, latifundiários e pastores terríveis.