Quarta-feira, Novembro 22, 2006

TAUTOLOGIAS

Tautologia, substantivo apoteótico para a porteira que lava o chão e para o Deus que molda o barro. Tautologias de projectos em acções inconsequentes sejam elas quais forem: criar um mundo ou limpar uma nódoa. Quer se esforçe a porteira ou o Deus, são ambos do mesmo estatuto. Pobres repetições de movimento de númeno nuclear, assobio pela janela fora carregado por vento e insistindo em mil partes só uma.
A tautologia é a condição ex nihilo da percepção do intrinseco no âmbito, e nunca fora deste, ou da causalidade e do efeito num jornal velho.
O repetido não é maléfico nem demoniaco, é o estado intuitivo da natureza da essência e da substância. Um dançarino sujando os fundilhos das calças na lama própria do chiqueiro seu, quer se considere grande ou mau no que faz írá escorregar repetidamente e espernear de bojo na autofagia. lá está o individuo, lá está o quê qualquer. irredutivel para que hipotética acção esteja errada ou certa é monstruoso e certo que seja sempre verdade e não simulacro, verdade-erro, erro-verdade. Parada mitigada aprioristica, ou configuração idêntica de Deus-Pai e da porteira com buço e rugas.
Se isto é pessimista, convêm lembrar que até esbirros e maus sofrem disto. que se estruturam fases e se engaiolam nestas correntes igual-a-igual com gente que subitamente, ou perpetuamente acha que paraisos ou infernos são reais. quando estes lugares sobrevivem nos nossos actos, e graças a eles se apelidam de eternos e recorrentes. a mimica disto e daquilo empurra o tema dos valores e os sublinha como irrisórios face ao continuum dos automatismos. o sofrimento, como o prazer, são apêndices da infrutifera repetição de gestos que se tornam, mercê disto, estéreis e envelhecidos. quem não se habitua a isto desconhece o tempo dos homens, e seu funeral será acompanhado por um cão sujo.

Quarta-feira, Novembro 01, 2006

O OBSCURO

2+2=5
Heráclito, quão semelhante acho o teu fado ao meu quando os cotejo! A tua obscuridade, o teu pé maior que o sol, o facto de teres sido devorado num monte de estrume. Acerca disto não haverá mais menções, as calamidades não falarei delas.
Agora que reparei na pura solenidade, notas de música que abundam no meio destroço dos corpos sulcando rotas, objectos encaixados pela mente de loucos oneiroi.
O vôrtice imóvel-mudante estendido dos que nada têm ou dos que tudo possuem é tal o branco ofuscante, folha de papel que se apresenta ao poeta ou à criatura que precisa de limpar o cu.
Ah! prerrogativa da criação, estante optimal! - Ódio, paixão, verosimilhanças, diferenças - criança descalça a chapinhar na lama, um homem empalhando a raposa, e a rasgada indiferente vogando discursos deles. que serão irmãos, mesclas, o cima e o baixo iguais, e o sempre presente símbolo da escada. a composição inteira ordenhando a desconexa união dos paradoxos, puro a trouche-mouche. que, com efeito, se prostituem absortos nos fluxos abismais do que nunca queremos ver vindo bater à porta: um arrastar de pés, um coto a raspar madeiras.
Heráclito puxará a barba nas suas descobertas, que argumentos inteiros predicam-se na mescla de ser e não-ser, e que são uns e outros, compadres perfeitos. Não divididos mas juntos até ao dia do juizo final.