Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

Jó recebendo más noticias

Como de tradição, era uma vez. Vez em que num âmbito se desenrolava a história de um justo. e encontrar o justo é tão ou mais dificil do que fazer escorreito e certo até ao sétimo dia.

Jó, o pequeno patarata encendiado por este foco, era ele. esboroado numa ponta da cama fitava os padrões truncados da paisagem. os pequenos animalejos de imaginação corriam e devoravam uns semelhantes. o seu espaço era desarrumado e o tapete, cheio de levantes, enrolava nas pernas dos imaginados. o seu estado de espirito, logo se via, era profusamente maltratado por estas inconviniências. Projectos do quotidiano que encarnavam nos símbolos avatáricos de profundo grotesco. o seu redor estava como Michigan central train station, alguns diriam: o cu de uma bêbeda tem mais aprumo.
segundo consta, perante estes dlin-dlões, o injustiçado justo só poderia permanecer impávido. e ademais já tinham escrito seu livro e apostado nas suas costas. Jó o Joanne, Jó para o auto da barca. o seu desalinho, mais do que corrupto era agrafado à credulidade real de que não poderia ser doutro modo. É esta a parte que cabe aos justos. o cubo diabólico, o maldito hiper-real.

Reconstruido, mercê da sua integridade, num galifão imundo e inocente, vitima de caprichos onanistas de Deuses e apaniguados. o quinhão de Jó era tinto de espirros de sangue, urinas secas. As paredes do quarto à Michigan, eram as paredes do corpo, adobes violentos. Mormente esta situação Jó não desarmava. Era sobretudo os escatológicos trovões com que o seu amor era correspondido, eram esses que o marejam de lágrima mais que tudo.

Sempre temente aos patrões, sempre bom para o pobre. Agora com escárnio se provavam insondáveis designios.

- Ao meu idóneo cometimento respondem agruras e rostos silentes dos filhos mortos. Os meus filhos serviram para pagar a factura . E minha mulher vi-a de mão dada com gorilas. Estes contornos babados em sudários fumam tabaco no inferno.

No meio da sua ruína, Jó saiu, arrastando o casaco pelo chão. Deparou-se com cena cómica, dois cães estavam em coito desajeitado, quase caindo. E ele riu a bom rir. Porque não? Não saiu do destroço para mitigar vergonhas de Ser integro em dobre.

- Se for cão para os deuses, como desconfio, ao menos farei destes meus irmãos e não a vosotros. Os meus filhos assassinados sobem para a garupa destes.


De súbito, é interpelado por um policia, cigarro no canto da boca, farda desavinda. Parecia um boi a sair da estrebaria atrás de vacas. O policia mal amanhado e o público a coscuvilhar, distraido da habitual venda de fruta podre. Ambos sabiam apreciar a boa sina do sofrimento. Iam-se revezando uns noutros, ora tu ora eu.

- Se te fazes na arrogância, a seres o último justo, por acaso te será dada uma coisa que não seja o auto da fé. teu nome é crime e teu pronome o lesa-majestade. - Disse o policia de bigodaça.

o que lhes calhava mal era a inusitada reacção da vitima do destino. os fragmentos do tempo colando-se em impróprias formas. a Jó não deveria ser permitida a trans-figuração da sua litania. Consentiam apenas que chorasse em muitos ais. respeito devido a um patrão que testando seu zelo, era o pré-conceito com que se cosiam as coisas. o desrespeito do estatuto e outro-lugar que não fosse o boneco dos deuses era sentido como hipocrisia.
ao público prostituído irritava a diferença e o facto de que, ironicamente, este Homem se havia liberto dos dias, e como último justo tivesse acatado o seu sentido por cima, não sujeito à cadeia dos acontecimentos.
Ao justo só é próprio sofrer, ser coberto de mofas e insultos. Para talvez no fim um hipotético inexistente ou existente lhe agradecer com obrigados reles. sempre haveria alguém digno de salvação, alguém para quem um Olimpo inteiro seria promessa. Ainda que para isso a sua vida real fosse anulada e a única certeza que poderia ter, arrastada pelas ruas como trapos roupa de baixo.
a questão é justamente o desproporcional sistema de valor e atribuição dele. Mas Jó é empecilho, Jó é estranho. Os filhos dele valem menos que fruta podre nas carroças. Jó tem que sofrer calado a injustiça dos céus e da terra para poder ser digno de beijinhos repenicados do Pai.
Embora ser justo devesse ser um valor ele-mesmo sem necessitar de mais explicação, noticia imutável.
Os fragmentos do tempo colados em formas impróprias ou inadequadas ultrajam o divino sádico. E o público sabe-lo. Os actos terão mais valor se suscitarem a corrida ao confessionário para cheirar os aromas do arrependimento e prestarem vassalagens. É mais certo que, aquele que reage linguarejando para a morte, sem qualquer medo, fique endereçado em postal para a Etiópia.
Quanto a Jó, depois de ser escorraçado pela multidão de galinhas e pelicanos em fúria, preterido em forma e contéudo pelo Pai, continuou o justo Jó, solitário e integro pela simples razão dos significados. Tento audacioso a que os filhos, reduzidos a pó, acharam muita graça.

Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

Poente

Herberto bateu a porta e saiu para a rua, com intenções de caminhar para aquele sitio. O sitio dos poentes sem eco melancólico a olhar para os pés. Dali pensava que o mundo se resumia a jogo de opas, naipes de coração. o espirito que baralhava as cartas no sono da sua vida como imenso polegar sobre duplas de formiga.

- O melhor de hoje é o vermelho alaranjado a bandas do sul. por trás da traineira que passa, pela frente da traineira que passa. os vultos da caverna de Platão.

No pontão do caís, era esse o sitio, o deserto era o símbolo real da traineira que tapava um pouco a vista. Era preciso esticar o pescoço, arriscar a queda, foder com a morte; Para apreciar condignamente dois anjos duas formigas enrolando-se na perdição mútua do horizonte. afinal estava tudo banhado de norte a sul A traineira era de ferrugem, língua de réptil entrando na boca. como se fosse embarcado nela.

Mas ele possuía a vitória do poema inútil para ti, para si. a corça dourada o unicórnio azul. o estágio pleno Quase a vincar rosa seca num aspecto de recompensas absolutas para centros de labirinto.

- agora não voltarei a abrir a porta de casa, a única frase do meu Adeus é filha do silêncio.

Dito isto, atirou as chaves de cousa qualquer para o rio, despiu-se, descalçou os sapatos e dobrou a roupa. e no poente deixou a beleza operar com vermelhos laranja. Á laia da humanidade acariciou os seios da morte fodida.

decorreu naturalmente, carbonizado e afogado p´los Morfeus de certo deslindar dourado. conquanto o ouro de várias vidas se apresentasse ao pensamento.

perante a ocorrência só poderia optar pela deslumbrada erecção. o resto lhe perdoará a superioridade de facto ou não lhe perdoará, mas isso já é assunto para os dias sem poente. os dias seguidos onde bocejam inactivas as argilas de que modelaremos bonecos extemporaneos.

Sábado, Fevereiro 10, 2007

O SÁBIO

Roupa enxovalhada, procissão de dúvidas que se adiantam. Corrida de leprosos espancados por bastões, espécie de jogo.

palavrões ditos como preces se apresentam orgulhosamente com folhos de dogma. ao estudar se vêem somente revoadas de traças se aproximando da lâmpada amarela.

Apenas mais um amanhã, apenas mais um, para constatar o opróbio. o amanhã do desaparecimento levando bagagem de dois dias

O segredo, a festa de sombras: que cruelmente se apalpa num cinema duvidoso por uma velha com tenções de derrotar a sua carreira de espantalho

crua sabedoria, me fazes parecer o bébé gatinhando atrás da velha lúbrica.