
Lá ia eu, uma criança que se assoava às mangas do pullover amarelo
Sem saber que “muitas coisas grandes havia sobre a terra”
Ia acompanhar a avô ao cemitério: o recomeço brusco das almas, a branquidão enegrecida da flauta de ossos – onde o coveiro bêbado soprava como uma puta
Ia visitar a minha mãe – a única santa, a que foi descalça para o inferno das biografias apagadas selvaticamente com aquelas borrachas vermelhas azuis
Nem me obrigava a ver o dia das pedras e dos mortos, para mim a coisa desconcertante era reparar nas flores, depositadas à anos, talvez na altura do adeus, que estavam secas e estaladiças como requiems da atenção de muita gente que prosseguiu a vida
Esqueceram-se daqueles restos emprateleirados ao monte, dispostos a três pancadas, por onde o peso dos corpos foi sendo amassado, e a pele, rasgada por corvos taralhocos, vestiu o fantasma de preto
“Quando eu era de criança
Ia de quando em vez
Visitar a minha mãe
Ia com minha avô
Que me obrigava a ver o dia
Das pedras e dos mortos
eu cismava sobre o peso
Das estrelas e do tempo
De encontro àquele deserto”
mãos lassas abundavam ao extenso do sítio, o coveiro dormia em cima dum caixão, com a braguilha aberta, estremecendo no seu sono, sabe-se lá com que terrores cósmicos
E o afago desinteressado da noute
Ainda orvalhando mármores, e os ciprestes curvados, sentenciando o que cá ficava com os monumentos do absurdo e o fim da inocência
desde então eu e os mortos encenamos os números, como sói a quem quiser o esclarecimento oblíquo

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